Pelos poderes de Grayskull! Eu tenho a força!
No dia 5 de Junho de 2026, fui ao Shopping D, assistir o filme Mestres do Universo. Um longa-metragem que usa como protagonista He-Man, personagem criado pela Mattel (a mesma da Barbie) que foi transformado em desenho animado pela Filmation. E isso atingiu muito o Brasil, afinal, o país deve uma febre de brinquedos da linha Masters of the Universe.
Quando a empresa Mattel, nos anos 70, notou a falha que fez ao não licenciar uma linha de brinquedos de um peixe pequeno de Hollywood, já era tarde demais. O rapaz trouxe uma ideia que se baseava em personagens de um filme que ele iria dirigir, que misturava viagens espaciais com teor medieval e elementos samurais. Eles não aceitaram e quebraram a cara depois. A concorrente, Kenner, aceitou a ideia. E o tal diretor era nada mais nada menos que George Lucas, e queria fazer brinquedos de Star Wars.
Para quem não sabe, o diretor não ganhou nada com o filme, pois a produtora receberia todos os lucros da obra, que foi muito bem. Entretanto, eles permitiram George Lucas ganhar grana com qualquer marketing e trabalhos relacionados com o longa.
Lucas deve tanto dinheiro, que criou diversos estúdios diferentes, incluindo a Lucas Arts, que anos mais tarde seria comprada pela Disney. E a Kenner ficou bilionária, deixando a Mattel de cara no chão.
Para tentar reagir, a Mattel precisou pensar em algo. Cogitaram em fazer uma linha de bonecos, baseados em Conan O Bárbaro, já que o filme com Arnold Schwzenneger estava fazendo sucesso. Entretanto, o personagem era violento demais. Um designer da empresa, colocou como ideias, três protótipos de bonecos. Um bárbaro antigo, um astronauta e um soldado tecnológico. E talvez por um estalo de intelecto, ou desespero, o grupo pegou as três propostas e juntou em um só.
Onde castelos ancestrais, ficavam junto de naves especiais e tecnologia de ponta, ao mesmo tempo que gatos falavam e bruxas existiam.
Para ajudar a fazer os brinquedos serem vendidos, além de colocar mini-quadrinhos junto deles, a Mattel fez um desenho animado. Já que as histórias dos quadrinhos eram bastante sombrias, o que contrastaria com a animação da Filmation, que assistimos a partir dos anos 80 e 90. E foi essa animação que eu consumi
Nunca conte mentiras. Dizer a verdade é sempre o melhor caminho.
Eu era um fã da animação. E sempre ficava no aguardo do desenho animado, quando podia assistir, já que minha mãe não ficava muito em casa. Ela tinha que trabalhar, da 13:00 as 22:00, na fábrica têxtil Karibê, depois chamada Paramount. Numa escala, algumas vezes, de 7X1. Cuidado por minha tia Bem, meu tio Dito ou as vezes ficava sozinho em casa. Já que meu pai que era um homem alcoólatra e nós (eu e minha mãe) fugimos dele, graças a força dela. Teresa Caraça trabalhava de sol a sol, para sustentar a casa.
Quase sempre poderia assistir ao desenho em dias de sábado, pois era o dia mais livre para isso. Quando chegava as férias eu poderia fazer isso com mais frequência, especialmente, pois minha mãe não gostava de muitos dos desenhos. Já que alguns tinham imagens que lembravam chifres (como no caso mais para frente, de quando assistia animes como Cavaleiros do Zodíaco e Yuyu Hakushô) ou termos mais fortes (Satan Goss, em Jaspion ou Armadura Satã em Jiraya). A história não era continuada, como hoje em dia são animações, até as mais infantis, ou seja, eram arcos fechados. Então, assistia episódios repetidamente. O que me fazia aprender bordões, problemas das animações e reconhecia a voz de alguns personagens, como muitos fazem com Chaves, hoje em dia.
Isso sem contar que uma figura paterna e masculina, eu observava de outras pessoas. Como meus tios Dito e Zé, além do meu tio avó, Sousa. Isso sem contar que minha mãe fazia as vezes de pai e mãe, para me criar da melhor maneira que ela podia, mesmo que fosse mais severa do que terna. E estava certa em fazer isso. Admito, que a figura de He-Man foi um exemplo de boa pessoa. Nos finais do episódio, ele ou outros personagens, davam uma lição de moral. Que era muito boa, na verdade, sobre aceitação e outras coisas.
Só que admito que ele foi meio que sendo coberto por uma enxurrada de personagens mais envolventes e mais combativos, com novas técnicas de animação, mas sempre me lembrava das lições de moral. Pois é assim que histórias, que realmente te atingem são. Enfim, passaram-se anos, e enfim, chega 2026.
A Mattel fez sucesso com o filme Barbie e por isso, pensou em fazer um filme de Mestres do Universo. E eu queria assistir.
Lembre-se de comer vegetais e praticar exercícios para ser forte e saudável.
No dia que fui para assistir, eu notei como esse personagem (dos desenhos animados, ao qual tive contato) me moldou. Quando um amigo estava atrasado, ajudei ele com a mala. Foi pouca coisa, mas muitos nem fariam isso. Ajudei um senhor pegando latinhas para ele. Sem contar que fui a PocCon. Mas o que tem a ver essa última ação, com ser bom? Bem, vejamos.
A Poc Con é a maior feira de quadrinhos, artes gráficas e cultura pop LGBTQIA+ da América Latina. O evento reúne centenas de artistas independentes, cartunistas e criadores queer, celebrando a diversidade em um espaço seguro e inclusivo. Ou seja, é feita por pessoas dessa denominação e para eles. E por qual motivo isso é importante nessa narrativa? Pois eu já fui considerado gay ou bissexual, por ter amizade com pessoas homossexuais.
Tempos atrás, uma pessoa que eu gostava muito, me questionou se por ter amizade com uma pessoa homossexual, eu não era bi ou gay. Isso me deixou com a cabeça coçando e um pouco ofendido. Não por ser comparado a alguém LGBTQIAPN+, mas por ter que explicar que minhas amizades independem de minha sexualidade. Eu já fui em terreiro e manifesto afro-religioso, mesmo sendo católico. Eu me afastei da pessoa, apesar de manter contato.
E eu enrolei tudo isso para explicar que o filme Mestres do Universo, tratam sobre isso, em não ser uma pessoa fechada, em dialogar em vez de fazer monólogos. Em resumo, a ideia é não ser um homem “redpill”, não incentivar a masculinidade tóxica. Vamos ao roteiro.
Somente aqueles dignos podem controlar a Espada do Poder.
Eternia, esse mundo mágico, tem como líder o Rei Andor, que está sempre em constante vigilância. Ele tem como filho, o príncipe Adam, um menino que não gosta de luta. E isso é visto por muitos, moldados pela força, como uma fraqueza do herdeiro. De qualquer forma, ele tem pessoas que o amam, como sua mãe a rainha, Mentor e Teela.
Ainda assim, o cruel Esqueleto, ataca com seus capangas, e derrota as tropas de Andor. A única maneira de os deixar livre desse inimigo, é eles precisam fazer com que Adam leve a Espada do Poder, para um lugar seguro. A mãe do príncipe fala que deveria levar ele a sua terra natal, a Terra. Essa última parte já me agradou, pois isso fala direto com o desenho animado, onde ela realmente é uma astronauta, que conheceu seu marido.
Adam é levado até lá, mas perde sua espada no meio do caminho. E vive uma vida cheia complicada, por falar ao crescer, que era de outro planeta, com magia ancestral e tecnologia super avançada. Sem muitas amizades ou relacionamentos para si.
Até o dia que FINALMENTE encontra a Espada do Poder. Isso o fará reencontrar com sua amiga Teela, agora adulta como ele, e a volta para o mundo de onde veio. Derrotar o mal que corrompe sua terra natal.
Se você tiver um problema, tente resolvê-lo conversando antes de usar a violência.
O filme é bom no que se propõe. Ele é engraçado na medida certa, seja para as pessoas na faixa dos 40 ou dos 10 anos. Há piadas que só os mais velhos vão entender, assim como coisas novas extremamente engraçadas. Sem contar algo que o cinema só viu recentemente no filme do Superman, de James Gunn: um herói genuinamente bom, que tenta dialogar.
Uma coisa que aparece no filme, Mestres do Universo nos seus créditos, é “vilões fazem monólogos, heróis dialogam”. E faz todo o sentido, pois Adam faz todo o possível para conversar com as pessoas, enquanto Esqueleto não escuta opiniões e força as pessoas a aceitarem suas decisões e suas falas pretensiosas. Muita gente esquece que ser herói, no cerne mais bonito, como do próprio Clark Kent/Kal-El, é salvar as pessoas. De todas as formas possíveis. Parece infantil, parece tolo. Mas é disso que se trata, em ter valores que te remetem a infância, quando acreditava que tigres verdes falantes poderiam ser de verdade e que poderia ser um homem melhor que o seu pai. E esse último bate de frente comigo e com o protagonista.
Na verdade, no meu caso, nunca tive alguém que quisesse me ver e me proteger, mas me tornei uma pessoa melhor devido aos exemplos que tive. Fossem na realidade ou ficção.
Enfim, o filme tem um grande elenco. Camila Mendes, que faz Teela, e Monica Baccarin, que faz a Feiticeira, são brasileiras e sabem como o personagem é querido por aqui. Nicholas Galitizine convence bem, mas não perfeitamente, como Adam e com bordões que sairiam do personagem dos desenhos animados. Idris Elba demonstra a maravilha que é ter um bom ator no grupo, para guiar essas jovens promessas como Nicholas e Camila. O que não se pode falar de Jared Leto, fazendo Esqueleto, que se salva, pois, a cara dele nem aparece, só o crânio. Talvez isso se deva a dublagem.
A voz é feita – na versão dublada – no filme pelo excelente Luiz Carlos Persy, substituindo o eterno Isaac Bardavid. Usando os maneirismos e canastrices do ator Jared Leto, além do talento que fez todos gostarem de Isaac como o Esqueleto original. Mas o grande destaque é Gárcia Jr. Ele não tem a mesma força de anos atrás, mas ele traz um Adam inocente e bondoso, como só o próprio fazia.
Por final, o filme trabalha essa questão de masculinidade tóxica, de forma boa. Mas não perfeita. Há momentos que o cômico e a explicação se perdem, no roteiro. E a cena em que isso fica mais claro, fica meio explícita, mas ao mesmo tempo se perde em outros detalhes da cena.
Tirando isso, não podemos deixar de notar as participações especiais. Como a de um ator do filme antigo e de personagens do desenho antigo e tão bem feito e orgânico. Sem contar as referências a coisas do desenho animado. Roupas específicas, armaduras que são colocadas na hora certa, risadas estranhas em referência a baixa qualidade do original. Está tudo lá, com uma boa mensagem por de trás.
Sobre a questão de masculinidade tóxica, tem momentos que eu pensei, será que estou sendo frouxo, como o vilão Esqueleto fala? E na verdade não, pois me lembrei de diversas pessoas que admiro que foram contra a corrente. George R.R. Martin se casou com uma mulher que era bissexual, ao entrar em um bar queer em que ela trabalhava. J.R.R. Tolkien era um católico, assim como sua mãe, em uma Inglaterra onde a religião principal é o anglicanismo. Ser um cara branco, hétero, católico, pobre, de esquerda, não me faz ir contra ou a favor de alguém. Na verdade, me faz ter que ser mais consciente de meus privilégios, sendo que nem tudo se resolve através da força pura.
Como diria Shakespeare, é bom ter a força de um gigante, mas é tolice usa-la como tal.
E no episódio de hoje...
E no episódio de hoje, nós vimos que é possível fazer uma boa obra que respeite a nostalgia, ao mesmo tempo que trata sobre um tema relevante nos dias de hoje. Mesmo que use como base, um brinquedo e desenho animado dos anos 70 e 80, respectivamente. E que defender pautas, LGBTQIAPN+, religiosas e de etnias, não lhe torna menos homem. Muito pelo contrário, demonstra que se pode ser hétero e sem masculinidade frágil, defendendo as amizades e outras pessoas, independente do que as outras pessoas pensem sobre você.